Rosselino afirmava que as paredes exteriores dos edifícios são as paredes interiores do espaço público. A (con)fusão entre a pele exterior e interior dos edifícios/espaço público desassossega o nosso espírito, estamos a habituados a ler a arquitectura como partes e não como um todo; a linguagem arquitectónica (a pala e o rodapé, ou a pele que envolve a estrutura dominó), o espaço público e a espacialidade (termo que cobre tudo enquanto nada cobre), nada podia ser mais artificial.
A linguagem arquitectónica é, como em qualquer outra actividade artística ou científica, um conjunto de símbolos que associados de forma repetitiva geram códigos. Tomemos como exemplo as ordens gregas, Ordem Dórica, Ordem Jónica e Ordem Coríntia, um exemplo claro de símbolos organizados de forma repetitiva que geram uma linguagem. Entre outras coisas, as ordens gregas aspiravam criar um todo harmónico: será isto um tique arquitectónico?
O Homem ao exercer uma actividade vai criando, consciente ou inconscientemente, uma matriz, em muitos casos nomeável como tique, associada normalmente à repetição de formas ou elementos específicos. Diz-se caricaturando que o tique do Siza é a pala e o rodapé, porque é algo que ele repete; mas eu diria que o tique dele é a não-hierarquização dos elementos arquitectónicos: a implantação é tão importante como o puxador. Essa é a sua matriz.
Voltando a Rosselino. Quando se fala de linguagem como imagem de um edifício, devemos ter presente que ela define espaço, ou seja, a pala define e caracteriza espaço tal como a organização funcional, sendo mais específico que uma escada, um pé-direito duplo, etc.... pensar na pala é também pensar espaço, pensar no espaço é também pensar na linguagem, na materialidade de um edifício.
Em cada projecto o arquitecto aprende/evolui; no projecto seguinte repete algo, formal ou conceptual... algo em que ele verdadeiramente acredita. Valério Olgiati afirma que procura a não linguagem, que antes de cada projecto esvazia a mente, cada projecto é como se fosse o primeiro, tenta o impossível. Será realista? Talvez não... não será este o maior dos tiques?
Nada é mais contraditório que a arquitectura e os seus autores, mas todos aspiram o mesmo, desenhar e construir, amanhã melhor que hoje....
José Pedro Azevedo