paradoxal arquitectos

terça-feira, 2 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Linguagem (a)


Rosselino afirmava que as paredes exteriores dos edifícios são as paredes interiores do espaço público. A (con)fusão entre a pele exterior e interior dos edifícios/espaço público desassossega o nosso espírito, estamos a habituados a ler a arquitectura como partes e não como um todo; a linguagem arquitectónica (a pala e o rodapé, ou a pele que envolve a estrutura dominó), o espaço público e a espacialidade (termo que cobre tudo enquanto nada cobre), nada podia ser mais artificial.
A linguagem arquitectónica é, como em qualquer outra actividade artística ou científica, um conjunto de símbolos que associados de forma repetitiva geram códigos. Tomemos como exemplo as ordens gregas, Ordem Dórica, Ordem Jónica e Ordem Coríntia, um exemplo claro de símbolos organizados de forma repetitiva que geram uma linguagem. Entre outras coisas, as ordens gregas aspiravam criar um todo harmónico: será isto um tique arquitectónico?
O Homem ao exercer uma actividade vai criando, consciente ou inconscientemente, uma matriz, em muitos casos nomeável como tique, associada normalmente à repetição de formas ou elementos específicos. Diz-se caricaturando que o tique do Siza é a pala e o rodapé, porque é algo que ele repete; mas eu diria que o tique dele é a não-hierarquização dos elementos arquitectónicos: a implantação é tão importante como o puxador. Essa é a sua matriz.
Voltando a Rosselino. Quando se fala de linguagem como imagem de um edifício, devemos ter presente que ela define espaço, ou seja, a pala define e caracteriza espaço tal como a organização funcional, sendo mais específico que uma escada, um pé-direito duplo, etc.... pensar na pala é também pensar espaço, pensar no espaço é também pensar na linguagem, na materialidade de um edifício.
Em cada projecto o arquitecto aprende/evolui; no projecto seguinte repete algo, formal ou conceptual... algo em que ele verdadeiramente acredita. Valério Olgiati afirma que procura a não linguagem, que antes de cada projecto esvazia a mente, cada projecto é como se fosse o primeiro, tenta o impossível. Será realista? Talvez não... não será este o maior dos tiques?
Nada é mais contraditório que a arquitectura e os seus autores, mas todos aspiram o mesmo, desenhar e construir, amanhã melhor que hoje....

         José Pedro Azevedo

Paradoxal Arquitectos


Diz o protocolo (não que dele gostemos, ou que dele faremos uso muitas vezes no futuro) que no primeiro texto de um blog se versa sobre os objectivos, convicções e princípios dos seus temas e intervenientes, e como tal, nada disso faremos. É assim que o queremos (o blog e o atelier), livre de ansiosas imagens cliché e lugares comuns.
Mas já que não explicamos ou explicaremos coisa alguma nesta introdução, clarificaremos pelo menos o nome Paradoxal deste atelier, ainda por existir. Paradoxal porque é o único adjectivo capaz de definir um grupo tão diverso como este, que concorda em muito pouco e raramente no essencial. Nascemos em 5 cidades diferentes e estudamos em 3 países diversos usando 6 línguas distintas. Não temos os mesmos valores culturais, sociais nem políticos; em suma, em pouco nos entendemos, à excepção da convicção de que deste conflito pode nascer boa arquitectura e que os projectos só têm a ganhar no cruzamento.
Queremo-lo o mais contraditório quanto possível, a um milímetro da linha de coerência que nos uniu. Sobre este tema (talvez o único) seremos muito claros na nossa consonância. A arquitectura como a vemos deve ser algo de simples e belo, capaz de emocionar quem a percorre sem nunca comprometer a lógica racional e funcional. Não existe parolo adjectivo arquitectónico, como movimento, velocidade ou gesto, que justifique o vender desta base. Não faremos megalómanos concursos para o Japão nem bolhas inspiradas em caracteres chineses em delírios para o Dubai. Ensinaram-nos a fazer arquitectura e não a construir delírios pseudo-artísticos. Em vez disso encontrarão em nós uma imensa dedicação e prazer em cada caixilho, cada remate, no maior dos equipamentos ou na mais pequena das casas. A arquitectura é arte construída, não renderizada e é isso que faremos.
Ao risco de confusão e incoerência responderemos com o sorriso de Mies Van der Rohe para o seu S. Agostinho, enquanto sentado na sua cadeira barroca na sua casa de modestas e bem definidas janelas....


João Marques Franco